A CULTURA DA DESONESTIDADE


No ano de 2005 o Instituto Gerp desenvolveu uma pesquisa em dez capitais brasileiras sobre qual seria o comportamento das pessoas entrevistadas diante de situações em que levariam vantagens burlando alguma regra legal ou social. A pesquisa, pasmem, concluiu que os brasileiros, na sua maioria, são honestos – nessa é difícil de acreditar!

Foram doze perguntas que versavam sobre permanecer com um troco a mais num caixa de supermercado, utilizar-se de um recurso para sonegar imposto de renda, estacionar na vaga destinada a deficientes físicos, fazer um “gato” na TV por assinatura, levar para casa canetas e envelopes da empresa ou órgão público onde trabalha, ficar com o dinheiro de uma carteira achada na rua, levar consigo uma toalha do hotel onde hospedara, furar a fila no embarque do ônibus, exceder o limite de velocidade ou avançar o sinal quando tiver certeza de impunidade, contar ao(a) melhor amigo(a) que vira seu cônjuge em ato de traição conjugal, usar cópia ilegal (pirata) de softwares de computador, dirigir mesmo suspeitando que bebeu acima do limite permitido.

A mesma pesquisa fora feita anteriormente em alguns países da Europa e, no cômputo geral, os brasileiros responderam menos sim do que os europeus, o que significaria, em tese, que os brasileiros são mais honestos que os europeus. Para mim a pesquisa não reflete a realidade: os brasileiros, com as devidas exceções, são capazes de atos desonestos. Basta lembrar a infinidade de golpes e desfalques que são aplicados diariamente, a preocupação que todos nós temos com a nossa segurança pessoal, de nossas famílias, de nossas casas, veículos, etc.; tudo isto nos mostra que há uma imensa horda de pessoas não confiáveis por aí.

As respostas dos entrevistados atestam que além de desonestos os brasileiros são também mentirosos. Observemos o comportamento dos nossos políticos e perceberemos o quão desonestos são – até alguns tidos como intocáveis deixaram cair suas máscaras e, com certeza, há outros por aí na mesma situação... Os políticos são pessoas saídas do seio da sociedade e é dela que trazem consigo a propensão de se apoderar do que não lhes pertence. Há uma cultura de desonestidade ao nosso redor: impera a chamada “Lei de Gerson” em que o fim é obter vantagem, o meio utilizado não faz diferença.

Ultimamente uma onda de denúncias de prática de corrupção por parte de políticos brasileiros tem ocupado os noticiários do país e, por incrível que pareça, isso ainda nos causa surpresas. Vivemos tentando nos convencer de que somos um povo ordeiro, gentil, trabalhador e honesto. Não o somos: tudo isto é tão-somente uma mitificação ideológica. Com as devidas exceções, somos um povo desonesto (além de violento e pouco afeto ao trabalho). A grande maioria dos brasileiros seria capaz de praticar os pequenos atos de desonestidade constantes das perguntas da pesquisa, contudo, poucos são capazes de assumir que o fariam. Os nossos achaques de bairrismo e de falso patriotismo impedem que nos assumamos tal qual realmente somos – a maioria de nossas ações são motivadas por interesses pessoais e/ou de pequenos grupos.

E, só a título de ilustração, vejamos mais um absurdo para autenticar a roubalheira dos políticos. De acordo com o jornalista Franklin Martins, da Rádio CBN e Rede Globo de Televisão, o deputado federal Jutay Magalhães, do PFL da Bahia, é autor de um projeto de lei que proíbe o Ministério Público investigar atos de corrupção do Presidente da República, Governadores de Estados, Senadores, Deputados Federais, Deputados Estaduais e Prefeitos. Essa lei, se aprovada, em tese, legaliza a corrupção no Brasil. O projeto já teria sido aprovado em primeiro turno na Câmara dos Deputados – deve estar engavetado temporariamente até que baixe a poeira das denúncias de mensalão, mensalinho, caixa dois, correios, tráfico de influência, propina do jogo do bicho, etc.

Se o Ministério Público, que ainda é uma das poucas instituições públicas merecedoras de crédito neste país, ficar impedido de investigar atos de corrupção de políticos, estará sendo instituído esse mar de lama que nos cerca e que até agora ninguém conhece os seus limites. Nós, então, seremos obrigados a viver imersos nesse lamaçal sem nada poder fazer para mudar os rumos dessa imundície. Não conheço o “famigerado” projeto, mas a fonte que o divulgou é considerada confiável. Se realmente é verdade, não será difícil que ele seja aprovado no Congresso Nacional – o Presidente Lula, diante das atuais circunstâncias, pode até recusar a sancioná-lo, mas, isto não impede que o próprio Congresso o faça em decisão posterior.

Ora, sejamos sinceros, diante de tantas evidências, seria lícito arvorarmos para nós a condição de um povo honesto?... E como mudar essa situação? Primeiro é preciso que tomemos consciência do que realmente somos para depois empreendermos as mudanças necessárias no nosso comportamento. A partir de então deve-se procurar mobilizar a sociedade como um todo para a necessidade de se aprender a respeitar o próximo – desonestidade é, sobretudo, desrespeito pelo próximo; todo ato desonesto implica em algum tipo de desrespeito.

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