EDUCAÇÃO DOMÉSTICA SEM TORTURA FÍSICA
A recente lei aprovada pelo Congresso Nacional que proíbe o castigo físico aos filhos, mesmo as famosas palmadas, tem causado polêmica. Há, inclusive, quem invoque parte do texto bíblico para justificar aplicar palmadas nos filhos sob pretexto de se tratar de uma medida didática de educação doméstica: “Não poupes a correção ao menino, porque, se lhe bateres com a vara não morrerá” (Provérbios 23-13). Há outros que afirmam que a lei é uma afronta à autoridade dos pais.
A questão dos castigos físicos aplicados aos filhos, pelos pais, é algo preocupante. É uma prática cultural que perpassa gerações na nossa sociedade, sem que a maioria dos adeptos se dê conta dos seus malefícios sobre quem recebe esse tratamento. Já vi, decepcionado, estudantes universitários e professores defendendo a aplicação dessas torturas sob a alegação de ser um método eficaz na educação doméstica.
Numa reunião de um Conselho Comunitário de Segurança Pública, na qual houve um debate sobre a atuação do Conselho Tutelar da Criança e do Adolescente, vi, com certa preocupação, várias pessoas, inclusive uma professora aposentada, defendendo que “umas palmadinhas ou umas cipoadas não fazem mal e que crianças precisam ser corrigidas com rigor”.
Todo castigo físico é tortura e toda tortura é desrespeito, é humilhação. A dor da tortura não se restringe à dor física, atinge, sobretudo, a alma do torturado; entretanto, o castigo físico aplicado pelos pais aos filhos nunca é visto, pelos adeptos dessa prática, como tortura e sim como um instrumento de educação.
Quem defende esse tipo de tratamento não percebe que, quando age assim, está buscando, na verdade, satisfazer o seu ego violento; age como se estivesse se vingando de quem praticou algo que julga estar errado. São pessoas imediatistas que julgam está encontrando soluções para determinados problemas a partir do sentimento de dor de quem cometeu algo que, em tese, não deveria cometer: quem defende a aplicação de tais “corretivos” não tem consciência das conseqüências dessas torturas na mente de crianças e adolescentes torturados.
Nota-se, através de comportamentos como os citados, que gerações inteiras passarão antes que se compreenda que uma criança, na verdade, é um adulto com menor compleição física e menos experiência de vida, mas que possui, em contrapartida, uma carga de energia cinética maior que o adulto (é mais irrequieto e curioso por natureza). Além do mais, todas as experiências frustrantes, vividas por uma criança ou adolescente, trarão conseqüências danosas para a sua personalidade em formação.
Assim, basta que o pai (ou a mãe) se imagine sendo torturado para saber exatamente o que sente o filho castigado com uma “palmadinha”. Vale lembrar que uma “palmadinha” numa criança equivale a um golpe de cassetete num adulto.
O psiquiatra austríaco Bruno Betelheim, em seu livro “Uma vida para seu filho”, afirma que: “O que as crianças aprendem com o castigo é que o poder faz a justiça. (...) Qualquer castigo – físico ou emocional – nos coloca contra a pessoa que o infligiu”. O psicólogo espanhol E. Mira y Lopes, em seu livro “Escola dos Pais”, esclarece que: “Nada diminui tanto o pai aos olhos dos filhos como mostrar-se nervoso, ‘fora de si’ ou inseguro. Um pai que é visto pelos filhos como impulsivo, injusto, ansioso (...) é um ídolo que se desfaz em pedaços”. O fato é que contra todo castigo físico haverá alguma forma de reação em algum momento.
A nova lei, não obstante a reação de pais e educadores conservadores, surge como uma esperança de uma educação doméstica calcada no diálogo, para que nas gerações futuras tenhamos mais e mais adultos emocionalmente saudáveis.
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