Cordel: Dependência Química - Doença incurável que acomete o paciente e fere pessoas do seu convívio
LITERATURA DE CORDEL
AUTOR: JOÃO FIGUEIREDO
Cordel
nº 10/2020
Montes Claros-MG
Apresentação
O
presente trabalho, em forma de Literatura de Cordel, foi inspirado no trabalho
que o autor desenvolve com Dependentes Químicos, desde meados de 2017, no
Centro de Recuperação São Francisco de Assis/Fazenda da Solidariedade São
Francisco de Assis, no município de Montes Claros-MG. São dois projetos de sua
autoria: “Projeto Capoeira e Meditação”, com os Dependentes Químicos acolhidos
no Centro de Recuperação, e o “Projeto RIME – Relaxamento, Meditação, Reflexão
Induzida e Reprogramação Mental”, com os egressos da referida instituição e com
os familiares desses egressos. O RIME também é desenvolvido com Dependentes
Químicos, que estão em tratamento fora do Centro de Recuperação, e com seus
familiares.
Foi escrito em sextilha, (estrofes de
seis versos), com versos metrificados em redondilha maior (sete sílabas
poéticas). A técnica para esse tipo de versificação consiste em manter rimas
entre o segundo, o quarto e sexto verso. O primeiro, o terceiro e o quinto
verso são os chamados “versos brancos”, que possuem metrificação e não têm
rima. Esquema de rima, neste caso, é definido como ABABAB.
I
Que o uso da droga é uma fuga
Ninguém ousa duvidar
Mas, a grande escapada
Está na pessoa negar
Que de fato está fugindo
Sem ter aonde chegar.
II
Citemos os alcoólatras
Que na grande maioria
Diz que álcool não é droga
Que seu uso não lhe vicia
E que para quando quiser
Mesmo se usar todo dia.
III
O vício é a necessidade
Do organismo e da mente
De consumir substâncias
Que visam tão-somente
Mudar o comportamento
Do sujeito que a sente.
IV
Ora, alcoólatras são
Os que para dialogar
Tomar uma decisão
Conseguir argumentar
Necessitam de beber
Embriagar-se pra atuar.
V
São iguais todos os vícios
Das drogas psicoativas
Encobrem lacunas íntimas
As agruras subjetivas
Com sensações ilusórias
Que soam definitivas.
VI
A Dependência Química
Ou a tal Toxicomania
Também a Drogadição
São termos de igual valia
O significado é o mesmo
Muda apenas a grafia.
VII
A OMS recomenda usar
O “Famacodependência”
Invés de Toxicomania
Pois a má experiência
Com a palavra mania
Prevê grave consequência.
VIII
A Dependência Química
É um transtorno mental
Que acomete o sujeito
Um mal comportamental
Reconhecido com código
De uso internacional.
XIX
Como já foi mencionado
A Farmacodependência
Desenvolve no organismo
Uma ferrenha exigência
De se manter o consumo
Parar => crise de abstinência.
X
Uma doença crônica
Para a qual não se tem cura
Ou o paciente está ativo
Na sua vida de agrura
Ou está em tratamento
Enfrentando sua loucura.
XI
O tratamento depende
De o paciente saber
Dessa sua enfermidade
E que terá que aprender
A se conhecer melhor
Pra com o mal conviver.
XII
Seguem pela trajetória
Dos Farmacodependentes
Um grupo de acompanhantes
Que são os “codependentes”
Que sofrem ao lado deles
Seus inconvenientes.
XIII
O codependente sofre
Com a dor do Drogadito
Adoece ao lado dele
Um padecer infinito
Sente culpa e impotência
Sufoca o próprio grito.
XIV
Para o Dependente Químico
É difícil perceber
O mal que causa no entorno
Pessoas que faz sofrer
Seu egoísmo doentio
As leva a adoecer.
XV
O controle da doença
Depende da autoestima
Valorizar a si mesmo
Sentir-se bem e por cima
Daquilo que o incomoda
Fazer o que lhe apraz e anima.
XVI
As atividades físicas
Que gerem serotonina
Uma relação saudável
Com fontes de adrenalina
Viver prazerosamente
Com limites e disciplina.
XVII
Fazer autotratamento
Sem automedicação
Os exercícios físicos
Prevenir a depressão
Fazer passeios ao ar livre
Evitar a solidão.
XVIII
O tratamento inclui
A mudança de rotina
Ter percepção de si mesmo
E de que o vício é ruína
Entender que a doença
Não é castigo nem sina.
XIX
A crença em Deus ajuda
Desde que haja atuação
Do paciente e família
Na busca de solução
“Deus ajuda quem trabalha”:
Que se junte prece e ação.
XX
Refletir a transcendência
A espiritualidade
Meditar sobre a vida
Reduzir a ansiedade
Vivenciar poesias
Artes, sensibilidade.
XXI
Tudo na vida se resolve
Não há mal sem solução
Reconhecer o problema
E tomar uma decisão
É a principal atitude
Pra conter uma compulsão.
XXII
O vício é força contrária
Agindo no Drogadito
Arremessa-o ao desatino
Coloca-o em conflito
Consigo e com os demais
É tachado de maldito.
XXIII
Os males de qualquer droga
Não estão na droga em si
Estão na alma do usuário
Que busca paz ou frenesi
Mergulha nas ilusões
Brilho de falso rubi.
XXIV
Conviver com a doença
É reconduzir a vida
Retomar-lhe as rédeas
Reassumir a guarida
Do seu próprio destino
Numa batalha renhida.
FIM
Dados
biográficos do autor
João
Figueiredo é natural de Montes Claros-MG, subtenente reformado da PMMG, casado,
pai de três filhas do primeiro e de dois filhos do segundo casamento. Quando no
serviço ativo da PM atuou como Instrutor do Proerd (Programa Educacional de
Combate às Drogas e à Violência), Monitor de Curso Técnico de Segurança
Pública, Monitor de Técnicas de emprego do bastão-tonfa como instrumento de
defesa e ataque, Monitor de Tiro Policial, Monitor de Técnicas de redação,
Monitor de Direitos Humanos, Monitor de Policiamento Comunitário, dentre outras
funções.
Historiador,
sociólogo (Registro MTb/MG0957), jornalista profissional (Registro MTb13.217-JP),
escritor (ensaísta, poeta, cronista, contista, cordelista), capoeirista e
professor de Yoga. Desenvolve há dois anos o “Projeto Capoeira e Meditação”, de
sua autoria, com jovens e crianças na comunidade rural de Espigão de Cima e com
dependentes químicos do Centro de Recuperação São Francisco de Assis.
Desenvolve um trabalho de Relaxamento e Meditação, também de sua autoria,
denominado de “Projeto RIME – Relaxamento, Meditação, Reflexão Induzida e
Reprogramação Mental”, com os egressos do citado Centro de Recuperação e com os
familiares dos dependentes químicos que ali estiveram ou estão em tratamento.
Publicou as seguintes obras:
LIVROS 1 – “Capoeira: A
Psicoterapia corporal dos oprimidos”, abordagem psicanalítica, de linha
reichiana, sobre a Capoeira: trata da política do corpo e dos efeitos da
Capoeira como instrumento de libertação da mente e das amarras corporais; 2 - “A Minha vida durante e depois do
câncer”, relato autobiográfico da relação do autor com o câncer, as
dificuldades do tratamento, as expectativas em relação às pessoas próximas, a
luta contra o preconceito em relação à doença; 3 - “As forças invisíveis da Capoeira”, o livro se divide em duas
partes: uma de poesia e outra de ensaios; aborda a relação do capoeirista com a
sua espiritualidade e suas crenças, durante a prática da Capoeira; 4 – “Juramento (1953-2010) – Um pedaço
da História do Norte de Minas”, levantamento histórico sobre o município no
período citado; foi coordenador de pesquisa, organizador do livro e redator da
parte que trata de política; 5 –
“Ataque ao Palácio e outros causos da caserna”, coletânea de contos (causos)
que circulam oralmente nos quartéis da PM no Norte de Minas como se verdadeiros
fossem; 6 – “Meninice Campesina”, o
primeiro título provisório era “Histórias de um menino da roça”, são contos
autobiográficos da infância do autor; 7
– “Sobre Capoeira e capoeiristas em sexteto agalopado”, opúsculo de Literatura
Popular, em 68 páginas, que trata da visão acerca do que é Capoeira, na sua
dimensão histórica e cultural, e sobre o comportamento e as crenças dos
capoeiristas.
CORDÉIS: 1 –
“Mestre Eurico Violeiro – Referência cultural na comunidade de Espigão de Cima
e toda a região”; 2 – “O fim dos
grandes prostíbulos de Montes Claros coincide com o surgimento dos primeiros
motéis na cidade”; 3 – “Comunidade
de Espigão de Cima, município de Montes Claros/MG - Sua História, sua gente, seus conflitos e
suas particularidades”; 4 – “Lu
Pimenta – A primeira Mestra de Capoeira da terra das alterosas”; 5 – “O lendário Mestre Suassuna – Comandante de um
Transatlântico Cosmopolita chamado Cordão de Ouro”; 6 – “Oliveira Lêga: Um político progressista
que foi penalizado por ser honesto e querer combater as injustiças sociais”; 7 – “Crítica à elite cordelista: O
Cordel surgiu da luta contra a cultura elitista da aristocracia, mas criou sua
própria elite”; 8 – “Os falsos
amigos – em Décimas – As mentiras tinhosas de personalidades pérfidas”; 9 – “Os campos de concentração
brasileiros: Primeiro antecedemos,
depois imitamos os Nazistas!”; 10 – “Dependência Química – Doença incurável que
acomete o paciente e fere pessoas do seu convívio”; 11 – “O Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros: Uma
conquista da sociedade norte-mineira”.
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