A arrogância e o cinismo como marca registrada
Muita
gente, que se acha esclarecida, não sabe sequer a diferença entre um povoado e uma
pequena cidade. Foi o que eu vi na atitude de três jovens que pareciam de
passagem no Povoado de Lagoinha. Um disse: “ainda têm coragem de dizer que isso
é cidade!”, referindo-se ao povoado que apontava com um olhar panorâmico. Havia
desprezo naquele olhar. Seguiram-se as gargalhadas dos três.
Aproximei-me
da entrada do pequeno supermercado no qual intencionava entrar, próximos dessa entrada
estavam os ditos jovens, e fui interpelado pelo que acabara de fazer a afirmação
que eu, por acaso, ouvira. “Existe alguma padaria por aqui?”, perguntou
subitamente, dirigindo-se a mim. Antes de responder olhei no rosto do jovem e
vi uma inequívoca expressão de escárnio, cinismo. Pensei em não responder, já
que em nada me agradava o semblante cínico e arrogante do jovem, mas respondi: “aqui
também é padaria!”, respondi-lhe apontando para o pequeno supermercado. Ele deixou
uma gargalhada estridente explodir; os outros dois jovens o acompanharam no
mesmo comportamento. Até pensei em avançar no diálogo para fazê-lo ver o quanto
era ridícula a sua atitude, mas optei por seguir em frente em direção ao
aludido comércio, sem nada dizer.
Havia
em mim, além da indignação pela arrogância e empáfia dos jovens, uma dúvida
sobre o porquê da explosão de risos quando falei da padaria: o pequeno
supermercado é também uma modesta padaria que fabrica o básico. Seria as
instalações modestas da padaria o motivo das risadas estrepitosas? Só horas depois
foi que a ficha caiu e eu me toquei que o meu interlocutor falava do modelo de padarias
que surgiu no final do Século XX: elas deixaram de ser simples fabricantes de
pães e biscoitos para se transformarem também em lanchonetes e, em alguns
casos, em multicomércio que oferece refeições completas, doces e salgados
variados, queijos e até adega. Não era o caso da padaria do mercadinho, que tem
o formato das tradicionais padarias de bairros, instalações simples, onde a clientela
busca os produtos para os consumirem em casa. Com certeza o pentelho desconhece
esses dados históricos.
Afora
toda a confusão entre padaria tradicional e padaria com lanchonete, ficou a
lição (negativa) do comportamento dos jovens. Num passado não muito distante
era possível concluir por tais atitudes que se tratavam de jovens de Classe
Média, de família tradicional cristã e de direita (quando eram nítidas as
diferenças entre esquerda e direita), hoje qualquer avaliação nesse sentido
seria precipitada.
Estamos
vivendo no Brasil a era da má educação, da grosseria, do escárnio, do cinismo,
da ausência de valores, inclusive por parte de autoridades que conduzem o país
e contribuem para a institucionalização dessas atitudes. São os ingredientes do
autoritarismo. Enfim, estamos vivendo a época do egoísmo, do desrespeito pelas
diferenças, do desrespeito pelo outro... E uma grande maioria acha isso normal!
Estamos vivendo a era da ignorância, do desprezo pelo conhecimento, pela
ciência – vi, recentemente, alguém, numa Rede Social, classificar História,
Sociologia e Psicologia como “ciências inúteis”; deve ser alguém que pensa como
os jovens acima citados, de repente são até parentes ou amigos das famílias
deles, porque ninguém nasce arrogante ou cínico: aprende-se a sê-lo, e aprende
em casa ou no convívio social.
No
caso dos pentelhos petulantes, é possível que muita gente se acuda na defesa deles
dizendo que tais atitudes são próprias da idade, quando, na verdade, são próprias
da falta de formação enquanto ser humano, da falta de senso ético, do respeito
pelo próximo, que convergem para uma expressão que resume tudo: falta de
caráter.
Sim,
estamos vivendo a época da falta de caráter neste país e esse é um comportamento
massivo. Desonestidade se tornou sinônimo de esperteza e, destarte, o que é
errado só o é se for praticado pelos outros. A questão da derrocada moral da
sociedade brasileira é algo bem mais profundo do que possa parecer. Culpamos os
políticos por serem detentores desses comportamentos, quando na verdade é a
sociedade, onde eles são formados, é que é assim: 95% das pessoas que criticam
os políticos ímprobos, demagogos e corruptos faria o mesmo, ou até pior, se
estivesse no lugar deles.
Apesar
de tudo, se considerarmos as verdades contidas no adágio “tudo que é ruim tem
um lado bom”, sou forçado a admitir que a incivilidade e a inconveniência daqueles jovens me
trouxeram algo de positivo: levaram-me a uma reflexão sobre questões que, muitas
vezes, por falta de motivação, nos passam despercebidas.
Grandes verdades neste texto. Quantas vezes já vi 7m cidadão falando que a policia é corrupta, mas quando seu filho vai tirar CNH prefere o caminho mais fácil do péssimo exemplo de corrupto e corruptores.
ResponderExcluirVerdade.
ExcluirUma reflexão profunda, extraída de um evento corriqueiro, cotidiano, e incômoda, pelas verdades que expõe. Estamos na época das banalidades, onde as coisas foram impregnadas pela futilidade mercadológica narcisista, e o senso de história e de pertencimento foi diluído numa noção de que o que está aí, está para o descarte, tão logo venha uma nova moda.Nesse panorama de proliferação de personalidades consumistas e ausência de alteridade, é comum vermos a insensibilidade o desrespeito por aquilo que funciona em um tempo próprio, em uma lógica própria. Como disse Caetano "Narciso acha feio, o que não é espelho".
ResponderExcluirIsso mesmo!
ExcluirChega um marco da nossa maturidade no qual nos conformamos apenas em ser o melhor de nós mesmo e em evitamos discutir e argumentar com ignorantes....para, talvez, torná-los melhores. Não, é perda de tempo! Os melhores (e não veja nisso arrogância) são os que buscam, não os que esperam ser melhorados. Aqueles jovens, pobres jovens, nunca passarão de "comedores de fast food".
ResponderExcluirVerdade, meu caro!
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