A “Polícia Regional” de Janaúba


Os dois anciões, com ares de aposentados da Classe Média, conversavam sentados a um banco na Praça Dr. Rockert, em Janaúba, observados por um repórter que casualmente sentara num banco ao lado. Era fim de tarde. Em tempo de pandemia do Coronavírus, os dois anciões não seguiam o protocolo de distanciamento social nem usavam máscaras. O repórter, forasteiro na cidade, usava máscara, estava a cerca de cinco metros dos dois e podia ouvir claramente do que falavam. Ficou muito interessado na conversa e começou a anotar o conteúdo.

– Janaúba cresceu muito! Parece cidade grande! Disse um deles.

– Cresceu! Antigamente a gente conhecia todo mundo que via aqui, hoje só se vê gente estranha: não se sabe quem é daqui e quem é forasteiro.

– É verdade...

Uma viatura da Polícia Militar passou. Deslocava-se em velocidade de patrulhamento e olhos fardados, enérgicos, atentos, seguiam observando cada veículo ou transeunte em movimento ou parado. Havia pouco movimento nas ruas.

– Lembra quando veio a Polícia Regional pra cá? Perguntou um ao outro enquanto olhava a viatura policial passar.

– Se lembro? Foi um pandemônio. Era só falar “lá vem a regional” e só via gente correr.

Os dois riram.

– Era uma polícia brava, não existe mais, não é mesmo?

– Na verdade, era a Polícia Civil que instalou aqui a Delegacia Regional de Polícia, mas o povo pensava que “regional” era um nome de uma corporação policial...

– Era mesmo, o povo os chamava de “polícia regional”.

– Eles chegaram aqui em 1976 e baixavam o pau sem dó. Neguim era preso por qualquer coisa e apanhava muito. Se alguém foi preso naquela época e disse que não apanhou, eu digo que é mentira. Apanhava antes de entrar na cela e era tirado de vez em quando para apanhar mais. Ladrão, então, entregava até roubo que não tinha feito...

– Mas, antes da regional não era muito diferente. A polícia batia também. A diferença é que a polícia quase não prendia: pegava os vagabundos, davam uma taca e liberavam. E os vagabundos respeitavam, tinham medo! Tinha aqui um soldadinho chamado Pompílio, era deste tamaninho. O sujeitinho era danado: dava soco, pernada, cabeçada...

– Dava tiro também. Atalhou o outro.

– Era mesmo, quando ele não resolvia na mão, resolvia no tiro. Tinha também o soldado Cabral, sabia que o nome dele era Pedro Álvares Cabral? Riu.

– O nome todo eu não sabia. Engraçado, né? O capitão Pedro era o delegado e com ele ninguém brincava! O sargento Celestino, o cabo Ragosino. Eram poucos policiais, mas davam conta do recado. Janaúba tinha problemas, sempre teve, mas eles resolviam tudo. Pouca gente era presa, mas, quem aprontasse, caía no pau.

– Aqueles vagabundos que não tinham jeito costumavam aparecer morto e ninguém descobria quem matou. Oficialmente era briga entre vagabundos, mas tinha gente que dizia pelos cantos que era a polícia fazendo limpeza. Nem o jornalzinho do Raimundo Brandão arriscava noticiar esses comentários.

– Mudando de assunto: eu tô encucado com esse sujeito no banco ao lado. Parece que tá ouvindo nossa conversa... Parece que que tá até anotando...

– Moço, cê é cismado demais. Ele deve tá fazendo as contas do mês... Sei lá! Porque estaria interessado na nossa conversa?

– Sei não! Tem doido de todo tipo por aí...

– É cisma sua! Por falar em gente que aprontava, lembra do Cula?

– Lembro. Ele encarava três, quatro, numa boa. Brigava bem e tinha coragem. Encarava a polícia e tudo.

– É, mas também apanhou dos homens da lei igual cachorro sem dono! Tanto que parou de aprontar para não ser morto pela polícia.

– Com a vinda da regional a coisa mudou. Todo dia tinha gente presa e o couro era bem pior do que com os PM. Até gente graúda apanhava; os filhos dos ricos que aprontassem caíam no pau iguais aos pobres.

– Eu sei. Até ouvi dizer que quando um filho de rico era preso, que rolava um pagamento por fora para que ele não apanhasse... Mas ia pra cadeia do mesmo jeito, só não apanhava quando a família pagava.

– Disso eu nunca tinha ouvido falar. Nunca ouvi falar de propina.

– Pois eu ouvi.

– Eu me lembro do inspetor que comandava os detetives na época, um homem alto, branco, meio calvo. Cara de bravo. O povo falava que ele tinha sido do DOPS e do Esquadrão da Morte. Acho que ele mesmo divulgava isso. Ninguém nunca soube se era verdade, mas que o homem era mau, isso era!

– Tinha também um detetive jovem, acho que era o mais jovem de todos eles, eu me lembro bem: era magro, cabelos lisos e grandes; não era diferente dos outros na maneira de agir. Chamava-se Anselmo. Ele foi embora daqui e se envolveu na morte de um casal de família tradicional em Montes Claros, foi preso, expulso da polícia. Mataram ele na cadeia.

– É mesmo? Desse eu não lembrava!

– Pois é, foi o caso do casal Fábio e Cláudia.

– Com a vinda da regional a PM ficou meio apagada. Eles tinham apenas um Jeep Willis velho, ano 59, que muitas vezes só pegava no tranco. Eu me lembro bem porque era consertado numa oficina ao lado da minha loja. A Polícia Civil tinha duas Rurais, duas Veraneios, todas bem conservadas, dois fuscas novos...

– Lembra que a maior parte dos problemas da cidade acontecia no Inferninho?

– Sim. O padre pediu à Câmara Municipal para que o bairro passasse a se chamar Novo Paraíso, para ver se os problemas acabavam! Só mudou o nome... Ali era a principal zona boêmia da cidade! Os dois riram.

– Não, a principal zona era o Fovocão, ali, do outro lado da linha férrea. Rua Lucas Viana Neiva.

– Certo, mas depois que acabou o Fovocão, o Inferninho foi a principal zona. Na verdade, o Inferninho, assim como o Fovocão, eram vários cabarés um próximo do outro; lá tinha o bar do Criolo, o bar do Baiano e outros: eram bares, com mesas de sinuca, e nos fundos tinham os quartos das prostitutas; elas bebiam com os clientes nos bares e depois iam com eles para os quartos.

– Depois teve outros cabarés independentes, como o de Gracinha Loura, por exemplo.

– O de Gracinha Loura tinha uma clientela um pouco mais selecionada. O pessoal da regional, inclusive, não ia lá só pra fazer trabalho de polícia...

– Os PM também iam lá. Teve policial que até mantinha mulher por conta lá.

– É, mas mantinha sem pagar, porque polícia não pagava mulher nem lá, nem em cabaré nenhum...

– Era a lei!

Os dois riram do chiste.

– É, mas hoje tudo é diferente. Pra começar não existe zona boêmia como naquela época, e a polícia mudou muito, tanto a civil como a militar. Ainda têm suas falhas, mas os policiais de hoje são completamente diferentes daquela época.

– O povo mudou, a polícia também tinha que mudar. Hoje todo mundo sabe dos seus direitos. Nada fica escondido; todo mundo tem celular, todo mundo tira foto, filma... Não tinha como a polícia não mudar...

– Falta melhorar muita coisa ainda, mas evoluiu muito.

– Bem! Vou embora tomar um banho. Disse um deles.

– Hoje é dia? Perguntou o outro, rindo.

Os dois riram, levantaram-se do banco e saíram caminhando juntos. O repórter ainda os observou indo embora; fechou sua caderneta: tinha material para sua crônica janaubense.

 


Comentários

  1. Excelente crônica. Quando terminei o curso de cabo, dia 15 dezembro de 90, fui o 01 e como "prêmio" tive a regalia de poder escolher onde trabalhar. Escolhi a Polícia Florestal em Janaúba onde morava minha irmã mais velha e perto de Mato Mato Verde onde minha filha nascera em julho. Fiquei lá pouquíssimo tempo pois havia passado no curso de sargento que começou em 01fevereiro de 91. Mas conheci pessoalmente ou a história de muitas figuras descritas. Me lembro do Pompílio. Joguei sinuca nesse "inferninho" e outras cositas mas. Bons tempos. Parabéns ao cronista.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A arrogância e o cinismo como marca registrada

O Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros em Cordel